❝ My Angel — Capítulo 7


❝ Just Give Me A Reason To Live

Estas alegrias violentas têm fins violentos. Falecendo no triunfo como fogo e pólvora, que num beijo se consomem.
Romeu e Julieta, Ato II, Cena VI.
***
Dor. Tristeza. Frio. Vazio. Nada.
Parecia que eu estava alternando em um estado de consciência e inconsciência, enquanto uma névoa negra muito forte me envolvia. Minhas pálpebras pareciam estar pesadas demais e eu mal conseguia ficar consciente por mais de dois segundos.
Mas mesmo com aquele torpor interminável, eu sentia que havia algo de muito importante que eu precisava me lembrar e quando isso acontecesse, eu iria conseguir sair daquele estado de inconsciência. Era como se o meu corpo, tivesse tentando me proteger de uma realidade obscura, abrigando-me num lugar dentro da minha mente sem lembranças – ou quase sem.
Havia algumas coisas que eu sentia.
Dor. Uma dor insuportável no meu peito.
Tristeza. Uma tristeza dilaceradora que me puxava ainda mais para aquela escuridão.
Frio. Era como se as minhas veias estivessem gélidas ao extremo, como se todo o calor do meu sangue tivesse sido evaporado.
E o que eu mais temia... O vazio e o nada.
Esses dois eram desesperadores. E eram exatamente eles que provocavam aquela dor insuportável, aquela tristeza dilaceradora.
Bella... Bella... Bella...
Em algum lugar dentro da minha mente, eu ouvia uma voz me chamar. Me concentrei nessa voz para poder sair daquela névoa.
Aos poucos comecei a ser sugada pela consciência novamente, até que uma luz muito forte me sugou para a plena consciência.
Abri meus olhos e fitei o alto.
Branco.
Minha vista estava embaçada. Tive de piscar algumas vezes até conseguir enxergar com clareza. Foi então que eu me dei conta de que o branco era na verdade um ângulo. Era o teto de algum lugar.
- Bella – ouvi uma voz muito familiar me chamar e então virei o rosto para o lado e vi o rosto de fada.
- Alice – sussurrei meio grogue, confusa por vê-la. Tentei me sentar e ela me ajudou enquanto eu olhava a minha volta.
Eu estava num quarto, sentada numa cama. As janelas estavam fechadas, mas dava pra ver que chovia muito do lado de fora, apesar das cortinas estarem fechadas. Havia algo de muito familiar na mobília clara e refinada. Era como uma sensação de dejavú, eu sentia que já estivera ali, mas aquela névoa me impedia de raciocinar com clareza.
- Você esta bem? – perguntou, sentada na beirada da cama.
- Estou zonza – murmurei, enquanto tentava clarear um pouco a minha mente. – Onde estamos?
- Estamos em Forks novamente. Voltamos para casa – murmurou.
Forks. Casa.
Aquelas duas palavras trouxeram uma avalanche de lembranças em minha mente.
Edward... Itália... Volterra... Tempo... Verona... Perdão... Amor... Felicidade... Volturi... Dor... Fogo... Morte...!
Edward... Edward... Edward...
Minha vida. Meu amor. Minha alma.
Minha respiração começou a se acelerar e o desespero tomou conta de mim.
Edward!
- Cadê ele, cadê o Edward? – perguntei desesperada, segurando o braço de Alice – que estava sentada na beirada da cama ao meu lado. – Onde ele esta? Como assim estamos em Forks? Como viemos parar aqui? Estávamos em Verona... Os Volturi eles nos encontraram e... – eu tagarelava sem parar num ato desesperado a procura de respostas, enquanto minha mente era tomada por dolorosas lembranças e aquela dor em meu peito se acentuava com o medo.
Medo. Medo do que estava por vir.
De repente a porta do quarto se abriu.
Carlisle e Esme entraram no quarto. Esme deu um breve sorriso para mim, mas seus olhos estavam tristes demais. Não combinavam um com o outro.
E Carlisle olhou para a Alice. Ambos pareciam estar conversando pelo olhar.
Alice voltou a olhar para mim.
- Bella... Você precisa se acalmar, não quero ter de te dopar novamente – murmurou, olhando para meu braço e segurando um fiozinho transparente ao meu lado, que até então eu não havia me dado conta.
Segui seu olhar e vi que havia uma agulha presa em meu braço, conectada a um acesso que injetava algum tipo de medicação em minhas veias.
Dopar? Novamente?
Arqueei as sobrancelhas.
- O que esta acontecendo? – perguntei assustada, oscilando o olhar entre Carlisle, Esme e Alice.
Porque Alice havia me dopado? Porque ninguém me respondia onde Edward estava?
Então me dei conta naquele momento da verdade que eu mesma estava tentando anular.
Ninguém iria me responder onde Edward estava, porque ele não estava conosco. E nunca mais estaria.
Fogo... Morte...
De quantas maneiras um coração pode ser despedaçado e ainda continuar batendo?
Parecia que o meu já não podia mais. No lugar de meu coração havia um buraco negro, que sangrava, doía e ardia cada vez mais a medida que era rasgado.
- Não! – foi a única coisa que consegui sussurrar antes das lágrimas começarem a escorrer por meus olhos.
Alice me abraçou e eu a abracei de volta, pousando a cabeça no ombro de minha amiga. Eu fechei os olhos, enquanto as lágrimas incontroláveis escorriam por meus olhos.
Não. Tudo aquilo... Não podia ser real. Ele não podia estar morto.
- Sinto muito, Bella – Alice sussurrou com a voz rouca.
- Não Alice... Ele... Ele... Não esta morto... Ele não morreu... Ele prometeu para mim que... – não consegui terminar, as lágrimas e aquela dor dilaceradora me sufocavam. Elas simplesmente não me deixavam pronunciar aquilo que eu precisava.
Negação.
Enquanto eu me agarrasse à falsa ilusão de que ainda havia esperança, eu podia sobreviver. Mas se aceitasse a realidade, então seria o fim de tudo.
Mas foi inevitável.
As lembranças do nosso último momento me bombardearam com força total, quebrando todas as barreiras de minha negação... Edward me dizendo que tudo ficaria bem enquanto nos preparávamos para voltar para casa. O medo incessante do que nos aguardava com a inesperada chegada da escória Italiana. Ele tentando me proteger dos Volturi. Nossa fuga pela floresta. Seu último toque em minha pele. Nosso último beijo. Seu olhar cheio de dor e agonia. E por fim, os últimos vestígios do som de sua suave e aveludada voz dizendo-me ‘Eu te amo’.
Tudo isso ficaria cravado para sempre em minha mente e em meu coração, por que o que era escrito a sangue pelas mãos do amor, é para sempre.
Meu amor por Edward havia me trago uma felicidade que poucos na vida conhecem. Mas também, uma dor letal. Era como se eu tivesse sendo esfaqueada repetidas e repetidas vezes, e a morte não quisesse me levar consigo.
O amor dói.
Nunca tive tanta certeza disso. Descobri isso de uma das formas mais cruéis possíveis. O amor dói tanto que não existe uma cura ou um antídoto para sua dor. O amor verdadeiro só se sente uma vez na vida e então é para sempre. O que é eterno, não há volta.
Eu sempre amaria Edward. Mas sempre haveria essa dor esmagadora.
Senti quando Esme veio até mim e também me abraçou. Ela balbuciava palavras numa tentativa de conforto para mim, em meio a soluços que brotavam do fundo de seu peito, assim como brotavam do meu. Mas não importava o que ela dissesse, sempre haveria essa dor, esse buraco em meu peito. Para sempre.
Nada iria mudar o fato de que eu havia perdido a minha alma gêmea e que essa seria uma dor que eu jamais iria conseguir superar.
Edward era a minha alma. A minha razão. O meu tudo.
E eu o havia perdido para sempre.
Dor. Isso era tudo que eu sentia. Dor.
Não havia mais nada de mim para se sentir. Eu estava perdida de mim mesma, minha alma fora arrancada de mim e eu nada poderia fazer para mudar isso. Porque a verdade era dolorosa e só havia uma. Não havia jeito. Era o fim.
Tudo o que eu podia implorar agora era que o destino tivesse piedade de mim e viesse com a morte para me buscar o mais breve possível. Sem hesitações. Sem atrasos. Não havia mais motivo para eu continuar a viver.
Edward me deixou. Ele não voltaria para mim. E desta vez, não havia nem uma pequena possibilidade disso acontecer, porque estávamos em mundos diferentes. Separados pelas dimensões entre vida e morte. Nada mudaria isso. Não poderíamos voltar no tempo e passar uma borracha apagando o passado e reescrevendo do ponto onde tudo deu errado. Isso jamais aconteceria. Só existia futuro. E para mim, o meu futuro era a morte.
Porque eu não podia viver sem o meu Edward. Eu não podia viver sem a minha alma.
A dor era tanta que eu me deixei permitir me afogar em sua imensidão. Eu já não ouvia mais nada, não sentia mais nada a minha volta. Minha mente só registrava o que era extremamente necessário e inevitável.
Esme tentou me fazer comer alguma coisa, dizendo que eu estava muito fraca e precisava me alimentar, mas eu neguei com a cabeça, incapaz de encontrar minha voz e conseguir falar algo. Ouvi quando Alice disse para ela não forçar. Carlisle examinou algumas feridas nos meus braços, em minhas mãos e nas minhas pernas e disse que logo eu ficaria bem, que logo elas iriam cicatrizar. Tive de me esforçar muito para conseguir entender o que ele dizia, porque a dor era tão forte que sobrepunha qualquer conexão com a realidade. Alice não saia do meu lado por nada. Ela estava sempre segurando minha mão, me dizendo que tudo iria ficar bem. Mas eu sabia que não iria. Nunca mais.
Eu estava com uma dor no corpo horrível, por causa dos machucados. Percebendo isso, Alice apertou um botãozinho que liberava uma generosa e significante quantidade de analgésicos pelo fiozinho que estava conectado em minha veia através do acesso.
A dor física passou me deixando praticamente inconsciente. Quem dera a dor no meu peito passasse também com remédios. A dor emocional, jamais passaria.
Eu estava em algum lugar entre a consciência e a inconsciência quando Alice ligou para Charlie para dizer onde eu estava.
Charlie. Meu pai. No meio de tanta dor e tanto sofrimento eu havia até mesmo esquecido dele.
- Olá Charlie, aqui é Alice – eu a ouvi falar no celular sentada numa pequena poltrona ao meu lado, provavelmente pensando que eu estava dormindo.
- Alice o que fez com minha filha? Onde esta Bella? Ela esta bem? Já faz cinco dias que ela saiu de casa e até agora não deu notícias, nem sequer deu um telefonema! – ouvi ele murmurar do outro lado da linha para ela. O som de sua voz era baixo, mas dava para ouvir o desespero nela.
- Sim, ela esta bem. Esta aqui conosco. Bella esta descansando. Ela ainda esta muito fraca e machucada – ela murmurou.
- Machucada? O que houve? O que fez com ela? – indagou, com notória preocupação. – Onde vocês estão?
- Estamos em Forks. Ela esta aqui em casa. Fique tranqüilo, Charlie – ela respondeu.
- Estou indo buscá-la – o ouvi dizer.
- Sim, mas Charlie espera. Você tem que saber de algo... Edward e Bella sofreram um acidente de carro em Los Angeles – ela murmurou.
Eu deveria imaginar que eles iriam contar algo do tipo. Os humanos não podiam saber a verdade dos fatos, porém precisavam de uma explicação. Um acidente de carro, explicaria a morte repentina de Edward. Mal eles sabiam que a morte de meu amor havia sido algo muito mais cruel e por minha culpa.
- O que? – ele indagou do outro lado da linha nervoso. – Como assim acidente de carro? Como minha filha esta? E Edward?
- Bella esta bem. Edward perdeu a direção do carro ao tentar desviar de uma criança que estava correndo no meio da rodovia e eles capotaram diversas vezes numa descida. Bella conseguiu sair do carro antes que o pior acontecesse, mas Edward não. Começou um grande vazamento de óleo e o carro explodiu. Meu irmão morreu.
- Meu Deus, Edward morreu? Um rapaz tão jovem... – Charlie parecia abismado do outro lado da linha. – E Bella, como minha filha esta?
- Muito mal, Charlie. Péssima descreveria melhor. Eles estavam juntos novamente e Edward iria voltar para Forks com ela. Mas infelizmente essa fatalidade aconteceu – Alice murmurou.
Sim. Edward e eu estávamos juntos novamente e ele iria voltar para Forks comigo. Iríamos nos casar e ficar juntos para sempre. Tantos sonhos, tantos planos... Mas péssima e mal não era o suficiente para descrever o que eu estava sentindo. Eu estava me sentindo vazia. Oca por dentro.
Parecia que eu estava caindo num abismo sem fim. E a culpa disso tudo era minha. Eu havia pulado de um penhasco e era tão inútil que nem sequer consegui acabar com a minha própria vida. Talvez, se eu tivesse realmente morrido, Alice tivesse ainda assim conseguido impedi-lo e agora ele estaria vivo. Ele ainda existiria.
Nos casar.
Isso fez com que eu me lembrasse do colar que ele me dera ao me pedir em casamento...

- Melhor do que ter uma aliança na sua mão é ter o meu coração perto do seu. – sorriu. – Meu coração é como uma pedra, mas ele é seu. Toda vez que olhar para esse colar no seu peito, pense em mim.
- Sempre – prometi. – Obrigada por me dar seu coração.
- Eu é que tenho que agradecer por você existir, meu amor. Você deu razão a minha existência – murmurou, dando um beijo em minha testa, e passando os braços em volta da minha cintura. – Meu coração sempre foi e sempre será seu.

Mesmo meio grogue e inconsciente, levantei a mão lentamente e toquei a correntinha em meu pescoço, que pendia o pequeno coração esculpido em safira azul.
Sempre.
Sempre pensaria nele. Em cada momento, em cada segundo.
Enquanto eu viver.
- Eu estou indo para aí. Quero ver minha filha – ouvi quando Charlie murmurou do outro lado da linha.
- Eu acho que ela esta dormindo. Bella esta sob o efeito de analgésicos e calmantes, para tirar a dor e acalmar o emocional. Ela esta completamente desestabilizada emocionalmente. Mas pode vir, acho que quando ela acordar ficara feliz.
- Sim, sim. Estou indo. Em poucos minutos estarei ai – o ouvi murmurar.
- Estamos te esperando – Alice disse por fim, desligando o celular.
Virei o rosto para o lado e olhei para ela.
- Alice – minha voz era apenas um sussurro. Aqueles analgésicos eram muito fortes.
Talvez fosse morfina, lembro-me de já tê-la em minhas veias e foi bem assim que eu fiquei.
- Bella... pensei que estivesse dormindo, querida – ela se levantou da poltrona ao lado da cama e se sentou ao meu lado. – Como esta se sentindo? Esta com dor?
- Não, estou bem – menti. A dor que eu sentia não tinha remédio que a curasse.
- Liguei para seu pai. Ele estava muito preocupado com você.
- Eu ouvi a conversa. – murmurei. – Então é isso que vamos dizer... Que Edward e eu sofremos um acidente de carro em Los Angeles?
Ela franziu o cenho.
- Precisamos dar uma explicação para as pessoas, Bella. – deu um suspiro. – Para todos os efeitos, estávamos morando em Los Angeles e eu havia vindo até Forks te visitar. Quando Edward soube das besteiras que estava fazendo, ficou muito perturbado e eu havia arrastado você comigo para lá, para explicar as coisas. Vocês dois conversaram e reataram o relacionamento. Quando estavam dando uma volta pela cidade, Edward tentou desviar de uma criança que estava correndo no meio da rodovia e acabou capotando com o carro. Isso explica os machucados que há em você.
- Há algumas falhas nessa história, não? – disse a ela.
- Como assim? – perguntou.
- Nenhum carro que explodiu após um acidente em Los Angeles... – respondi.
- Emmett e Jasper já resolveram isso. Eles foram para Los Angeles ontem e criaram as provas – murmurou.
- E o que vamos dizer a respeito do corpo?
- Que o corpo dele estava tão carbonizado que ficou praticamente irreconhecível. Vamos dizer que por causa disso, o corpo foi cremado. Apenas vamos fazer uma cerimônia na capela do cemitério de Forks para manter as aparências.
- Isso é mesmo necessário? – perguntei.
- Eu sei que é ridículo, diante das circunstâncias. Mas é necessário Bella. – murmurou, segurando minha mão. – Se quiser, pode ficar em casa, não precisa ir.
- Eu quero ir. Quero ir pelo menos fazer uma oração pela alma dele – murmurei.
Edward não acreditava que tinha uma alma. A única vez que ele acreditou que tinha uma alma foi quando nos reencontramos em Volterra e ele pensou que nós dois estávamos mortos. Juntos.
Mas como alguém que não tem alma, poderia ser capaz de amar tanto como Edward me amava?
Não, eu não acreditava nisso.
Edward acreditava que pessoas como ele iam para o inferno. Eu já acreditava que há essa hora, o meu anjo estava no paraíso.
- Bella, você ainda esta muito machucada... Não sei se é uma boa idéia, você precisa de cuidados e tratamentos pra ficar bem... – ela murmurou.
- Ficar bem? – sorri sem humor algum. – Talvez alguns desses machucados inflamem o suficiente meu organismo e eu morra. Essa seria a melhor coisa que poderia acontecer no momento. A morte.
- Bella, não diga uma coisa dessas. Edward não iria querer que você pensasse dessa forma.
- Apenas me de uma razão para continuar a viver, Alice... Ele esta morto... A razão... O amor da minha existência não existe mais. Não posso viver sem a minha alma. – murmurei enquanto as lágrimas voltavam a escorrer por meus olhos violentamente.
Parecia que os pedaços de mim estavam desabando de maneira lenta e dolorosa. Eu sabia que ia doer. Mas não imaginava que fosse tanto.
- Bella... Eu estou aqui... Minha família que é sua família também... Seu pai, sua mãe... Seus amigos... Viva. Viva por você. Viva por nós. Viva por Edward – ela me abraçou e eu dentei a cabeça no ombro de minha melhor amiga.
Era exatamente isso que eu precisava. Um ombro amigo... Eu precisava de alguém em quem me apoiar, porque do contrário, eu não iria conseguir suportar.
- Não... Eu não consigo mais viver. Dói demais – murmurei, deixando que as lágrimas me tomassem por completo.
Passei a mão em minhas bochechas, tentando enxugar minhas lágrimas. Senti uma fisgada no braço.
- Bella, não dobre o braço... A agulha... – ela alertou, esticando meu braço novamente. Deu um suspiro aliviado observando a minha veia. – Foi por pouco que ela não quebrou na sua veia.
- Por quanto tempo eu vou precisar ficar tomando esses remédios? – perguntei.
- Não vai mais. Agora seu tratamento continuará sendo via oral e cuidando dos curativos dos machucados, claro... Vou chamar Carlisle para ele tirar isso da sua veia. Seu pai deve estar chegando, também – ela murmurou dando um beijo na minha testa.
Alice se levantou e saiu do quarto. Abracei meus joelhos e curvei-me em posição fetal, numa vã tentativa de tentar amenizar a dor. Mas nada funcionava. Os pedaços de mim continuavam a cair e doía cada vez mais. Era insuportável aquela dor... Tinha de haver uma saída... Tinha de haver uma maneira de aquilo acabar... Dessa morte em vida se tornar apenas morte.
Carlisle abriu a porta e entrou no quarto.
Abri os olhos quando senti ele se aproximar e acariciar meus cabelos.
- Sei que esta sofrendo muito Bella, mas você precisa manter a calma. Precisa comer, filha – ele murmurou, acariciando os fios do meu cabelo.
- Eu simplesmente não consigo, não consigo mais... Foi por minha culpa Carlisle, minha culpa... Ele... Eu pulei do penhasco... Os Volturi... Edward deu a vida em troca da minha liberdade... Foi por minha culpa... Eu é que devia estar morta... Eu, não ele. – murmurava desesperada, enquanto as lágrimas escorriam por meus olhos. – Ele tinha a eternidade e ele a perdeu por minha culpa. Minha culpa...!
- Não, Bella... Não foi sua culpa. Foi o destino... Foram as escolhas que Edward fez que o levou até esse caminho... Foi a vida, querida – Carlisle sussurrou para mim.
- Carlisle – olhei para os olhos negros do imortal a minha frente. – Você salvou Edward a pedido de Elizabeth, mãe do Edward, não foi?
- Foi. Fiz isso porque ela me pediu – respondeu confuso sem entender aonde eu queria chegar.
- Quando estávamos na Itália, Edward disse que ela iria gostar de mim... Agora me diz: que tipo de mãe poderia gostar da causa da morte do filho? – falei. - Justo ela que anulou qualquer chance de ficar curada da gripe para cuidar de Edward... Ela me odiaria a essa hora. Tanto ela fez para salva-lo, deu sua própria vida para cuidar do filho e implorou que você o salvasse... Eu sou um monstro... Edward achava que ele era um monstro, mas eu é que sou – murmurei desesperada com a verdade em minhas palavras.
Eu era a causa de todos os problemas. Edward estava morto porque havia se apaixonado por mim. Porque me amava. Edward me deu felicidade e amor. Eu em troca lhe causei somente desgraça em sua vida. Causei sua morte.
Isso me fez lembrar a Catherine do livro O Morro dos Ventos Uivantes. Heathcliff havia lhe dado amor e carinho, e ela havia lhe dado em troca desprezo e dor. Heathcliff parece ser o monstro cruel da história o tempo todo, mas não era. Eu sabia que não era. Catherine era a razão de todos os problemas. Ela era egoísta e pensava apenas em seu querer. Eu era como ela. Se eu não tivesse sido tão egoísta a ponto de querer alguém que não era para mim, alguém que merecia coisa melhor do que eu, nada disso teria acontecido.
Eu era todo o problema. Eu não deveria existir. Não deveria poluir o ar perfeito.
Não mais.
Meus olhos já ardiam, pois não havia mais lágrimas para chorar. Apenas soluços brotavam de minha garganta e meu rosto devia estar todo inchado.
- Bella... Não pense assim querida. Edward te amava. Eu vi o quanto meu filho sofreu por ter de te deixar quando fomos embora de Forks. Ele te amava por sua humildade, inocência e bondade. E eu vejo essas mesmas coisas em você. Vejo um olhar puro e doce de menina, que agora sofre por amor, assim como meu filho sofreu. Um monstro, não teria tantas virtudes como você, Bella. Não pense assim, não se julgue dessa maneira – ele murmurou para mim e se concentrou em tirar a agulha presa em minha veia.
Edward podia me amar por tudo o que Carlisle disse. Talvez realmente houvesse tudo isso em mim. Mas isso não mudava o fato de que eu ainda era um monstro. Um monstro que havia tirado a eternidade de um anjo.
Senti quando o pequeno e fininho metal – a agulha - saiu de dentro da minha veia. Carlisle colocou um pequeno e redondinho Bandaide, sobre um pedacinho mínimo de algodão onde estava o furinho feito pela agulha e saia uma gotinha de sangue que fez com que meu estomago se revirasse naquele momento. Assim que ele o tampou, o enjôo começou a passar.
- Obrigada – agradeci, me lembrando de quando ele cuidará do meu braço no meu desastroso aniversário de dezoito anos.
Parecia que uma eternidade havia se passado desde aquele dia. Mas as conseqüências ainda pesavam. Pesavam e doíam de uma maneira que nada mudaria.
- Concentre-se em descansar – ele me disse. – Seja feliz, sorria, viva... Sei que agora será difícil, mas o tempo passa e as feridas serão cicatrizadas. Tudo o que Edward sempre quis é que você fosse feliz Bella. Seja feliz, viva por você. Viva por ele.
Não. As feridas jamais seriam cicatrizadas. Elas sempre iriam doer, arder... Sangrar!
E como eu poderia ser feliz, como eu poderia viver se a minha felicidade e a minha alma haviam sido brutalmente arrancadas de mim?
Edward era toda a minha felicidade. Era a minha alma.
E eu já não a tinha mais.
- Vou tentar – menti.
- Seu pai chegou. Posso ouvir o barulho do carro virando a esquina – ele disse.
Bom, eu não podia ouvir nada, afinal, meus sentidos não eram aguçados como o dos vampiros.
- Vou descer e ir recebê-lo – Carlisle avisou.
- Vou levantar dessa cama. – murmurei. - Estou com as pernas dormentes, preciso andar. Alias por quanto tempo eu apaguei?
- Por dois dias, talvez um pouco menos – Carlisle franziu a testa. – Alice disse que quando recuperou os sentidos, você estava desmaiada no bosque. Ela e Jasper fretaram um jatinho para voltarem para cá. Durante a viagem, você teve pequenos momentos de realidade e estava muito agitada. Ela comprou calmante e a fez tomar. Quando você chegou aqui estava dormindo, mas muito machucada e com um febrão fora do normal. Eu cuidei de você.
- Obrigada por tudo – murmurei tirando o edredom branco que estava por cima de mim e me deparando com a roupa que eu estava vestida. Uma calça jeans, uma blusa de alcinhas preta e uma blusa de manga comprida vermelha de lã por, com os botões abertos.
Não me lembrava de ter vestido aquilo. Assim como não me lembrava da viagem de volta para casa.
- Não há de que, Bella. – murmurou - Vou deixar alguns remédios que daqui por diante você vai ter de tomar, pelo menos até esses seus machucados desinflamarem por completo, tudo bem?
- Ta.
Ele pegou uma folha de papel em cima do criado mudo ao lado esquerdo da cama e me entregou alguns frasquinhos junto com ela.
- Cuide-se. Não deixe de tomá-los, é extremamente necessário para você se recuperar. O antiinflamatório é para suas feridas não inflamarem ainda mais e o analgésico é para tirar a dor.
- Tudo bem. Vou tomar tudo direitinho – disse a ele, embora não fosse inteiramente verdade.
Eu não pretendia viver por muito mais tempo sem Edward.
Já tinha meus planos em mente.

Charlie realmente havia chegado. Eu estava de pé olhando pela janela, quando ele entrou no quarto junto com Alice – que logo saiu nos deixando a sós.
- Bella, minha filha – ele me abraçou e eu abracei meu pai de volta, deixando que as lágrimas escorressem por meus olhos. Era uma forma de eu exprimir pelo menos um milésimo da dor que eu sentia.
- Desculpa por ter sumido pai – murmurei.
- Não se preocupe com isso, Bell’s. Meu Deus, você esta tão machucada... – murmurou e deu um suspiro. - Sinto muito pelo Edward.
Edward.
Toda vez que eu ouvia o nome dele, era como se mais uma vez eu fosse esfaqueada no fundo do meu peito.
- Ele morreu pra me salvar... Ele me amava – sussurrei em meio às lágrimas.
- Shhhh... Calma filha. – murmurou meu pai, acariciando minha cabeça. - Tudo vai dar certo. Dói, eu sei que dói. Mas vai passar, vai passar querida.
Nunca imaginei que Charlie pudesse ser tão carinhoso comigo. Minha visão dele era bem diferente do que eu estava vendo agora. Era verdade que conviver com meu pai, de verdade, eu só havia depois que vim morar em Forks. Mas meu pai nunca fora uma pessoa de demonstrar sentimentos. Ele sempre fora frio e de poucas palavras.
Era estranho para mim, porém, eu me sentia acolhida por ele. Pois apesar de tudo ele era meu pai. E sempre seria.

Charlie me levou para casa, mas antes que eu saísse da casa dos Cullen, Esme e Alice me deram um abraço e me disseram que sempre estariam ao meu lado. Carlisle me deu um beijo na testa e disse que qualquer coisa que eu precisasse, era para eu ligar. Não importava a hora. Eu agradeci a todos por todos os cuidados comigo, lutando para conseguir manter a compostura e não deixar que a dor e as lágrimas não me tomassem por completo.
A viagem para minha casa foi silenciosa, eu fechei meus olhos e esvaziei a mente, concentrando-me apenas em tentar me manter intacta até que ficasse sozinha. Não queria que Charlie sofresse vendo a minha dor. Ele não merecia passar por isso de novo.
Quando chegamos em casa, meu pai perguntou se eu queria comer alguma coisa e disse que Jacob estava preocupado comigo. Segundo ele, meu amigo não parava de ligar em busca de noticias minhas.
Limitei-me a dizer para ele que estava bem e que não queria comer nada. Charlie lidaria com Jake. Eu não estava em condições de falar com ninguém – mesmo que esse alguém seja Jacob. Eu precisava ficar sozinha.
Subi aos tropeços para o meu quarto, carregando comigo a minha bolsa que Alice havia trago de Verona. Ao chegar lá, tranquei a porta e joguei a bolsa no chão, deitando-me em seguida na minha cama e afundando-me em minha própria dor.
Enrolei-me na minha coberta vermelha e curvei-me em uma bola, tentando abrigar-me no pouco do acalento do amor de Edward que ainda havia em mim.
- Perdoe-me, amor. Eu te amo tanto – sussurrei baixinho para o nada, enquanto lágrimas de sangue escorriam por meu coração e pela minha face.
As lágrimas e a dor me tomaram por completo. Não havia nada de mim. Eu havia me tornado prisioneira de minha própria dor. E não havia nada que eu poderia fazer.
Edward estava morto. E eu não podia fazer nada. Absolutamente nada.
Quando a dor e as lágrimas, finalmente cederam um pouquinho de espaço para o cansaço, eu adormeci. Uma noite sem sonhos, completamente negra, onde o breu e o vazio eram completamente dominantes. O vazio. Era assim que eu me sentia. Vazia. Sem alma.
A noite passou com uma rapidez impressionante. Na manhã seguinte, eu acordei com a claridade entrando pela janela - apesar das nuvens acinzentadas de chuva -, sentindo meus olhos arder ao extremo. Fui arrastando meu corpo para o pequeno banheiro.
Minhas lágrimas haviam sido esgotadas. Fitei-me no espelho e vi o reflexo do que eu sentia estampado em meu rosto.
Dor.
Minha pele estava áspera e pálida, havia círculos roxos em volta de meus olhos que estavam pequenos e inchados por causa do choro. Eu estava parecendo uma morta viva. E era exatamente assim que eu me sentia tanto por dentro quanto por fora.
Uma morta viva. Um zumbi.
Eu estava no mesmo estado catatônico de quando Edward havia me deixado em setembro passado. Mas com uma diferença.
Dessa vez havia provas reais de que ele não voltaria nunca mais. De que era impossível. E isso doía demais.
Cansada, me arrastei para o chuveiro e deixei que a água quente escorresse por meus músculos. A água do chuveiro fez com que eu me lembrasse de minha noite de amor com Edward em Verona e mais uma vez as lágrimas – que eu não imaginava que ainda pudessem existir – me dominaram.
Sentei-me no chão de ladrilhos e coloquei a cabeça entre as pernas, enquanto a água quente caia por minhas costas, misturando-se as lágrimas que escorriam por minha face.
Porque a vida tinha de ser tão cruel comigo? Será que a minha felicidade desequilibrava algum tipo de balança no mundo que impedia de outras pessoas serem felizes e por isso eu tinha de ser tão azarada e apenas sofrer?
Quando eu esgotei com quase toda a água quente do chuveiro, levantei-me do chão e comecei a tomar banho direito. Passei shampoo por meus cabelos, sem sentir a textura dele em minhas mãos. E quando fui para lavar meu corpo, senti uma dor terrível por causa dos machucados em minha pele. Meus joelhos estavam completamente esfolados, minhas mãos estavam com vários cortes. Eu realmente estava machucada e um acidente de carro, explicaria a razão de tudo aquilo.
Desliguei o chuveiro e enrolei-me em minha toalha. Como eu havia esquecido de trazer minha roupa, sai do banheiro enrolada na toalha e fui para o meu quarto. Quando cheguei lá, Alice estava sentada na beirada da minha cama.
Seus olhos estavam profundamente negros, estampados pelo sofrimento e pela dor, que mesmo com um tímido sorriso que ela dera a me ver eram bem visíveis. Mas ainda assim, minha amiga parecia uma fada que havia acabado de sair de um livro de conto de fadas infantil. Uma fada, só que triste. Ela estava sofrendo embora eu não conseguisse imaginar o quanto. Mas ainda assim estava aqui ao meu lado.
- Bom dia, Bella! – murmurou, enquanto eu fechava a porta do quarto, para não tomar friagem – Como você esta?
- Bem – menti. Minha voz era só um breve e baixo sussurro, meu sofrimento e minha dor sobrepunham qualquer coisa. – O que faz aqui tão cedo?
- Charlie me ligou e disse que havia recebido um chamado urgente em Seattle. Teve de ir trabalhar e eu vim aqui para ficar com você. E também saber se você realmente vai querer ir para a cerimônia em homenagem a Edward – respondeu.
- Já é hoje? – perguntei, sentando-me na cama ao seu lado. Quem iria comparecer?
Será que a noticia já havia corrido pela cidade?
- É, hoje a tarde. – informou-me. - Emmett esta na cozinha. Pedi para ele preparar o café da manhã para você, ele cozinha melhor do que eu.
- Eu vou – murmurei fitando o chão.
- Tudo bem. Então, vou descer lá para baixo e deixar que você se troque. Trouxe isso aqui para você, uma vez que por causa dos machucados você não pode vestir qualquer coisa, afinal, pode se machucar com muita facilidade – Alice murmurou apontando para uma sacola de roupas, nos pés da minha cama que até então eu não havia me dado conta.
- Obrigada – agradeci, sem nem olhar para as sacolas.
- Não há de que – respondeu. Alice deu um beijo na minha testa e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
Olhei para a sacola e a abri. Havia um vestido preto que ai até o joelho e uma meia-fina na mesma cor. Vesti uma lingerie negra, e na hora em que fui vestir o sutiã senti uma pequena dor nos meus seios. Estranho. Eles pareciam estar inchados, talvez um pouco maiores e estavam extremamente doloridos.
Talvez, isso se devesse ao cansaço físico.
Depois de ter vestido a meia-fina – que era bem escura tampando os machucados - e o vestido, fui até o meu closet e peguei uma sapatilha preta que raramente eu usava. Sequei meu cabelo com a toalha e penteei os fios dos meus cabelos deixando-os soltos por meus ombros.
Ao me fitar no espelho que havia no meu quarto e ver os meus cabelos soltos por meus ombros, foi inevitável que a voz de Edward não me viesse à mente...
Adoro seu perfume... Seus cabelos ondulados emoldurando seu rosto a tornando ainda mais bela...
Ele havia me dito aquilo enquanto estávamos na banheira de hidromassagem na cabana.
Uma solitária lágrima escorreu por meu olho esquerdo, descendo por minha bochecha e passando por meu pescoço até chegar ao meu colo. E então eu me dei conta de que ainda estava usando o colar que ele me dera.
Eu não havia tirado. Nem tiraria.
Edward havia me dado o seu coração. E eu sempre o levaria comigo.
Toquei o pequeno pingente e levei aos lábios, beijando o pequeno coração.
- Sempre, meu amor – sussurrei.
Com um suspiro, sai do quarto e desci as escadas. Ao chegar na cozinha, ouvi apenas o finalzinho da fala de Alice.
-... Eu tento enxergar o futuro de Edward e tudo o que eu vejo é preto. Eu não consigo mais ver nada além do preto, quando tento ver o futuro dele.
Entrei na cozinha com o coração disparado. Parecia que ao ouvir o que Alice havia dito, uma nova chama de esperança se ascendeu dentro de mim, fazendo com que meu coração voltasse a pulsar.
- Como é que é? – indaguei – deixando bem claro que eu ouvia ouvido o que ela havia dito - olhando para Alice e Emmett, que arregalaram os olhos ao me verem.
- Oi Bella – Emmett deu um sorriso e veio até mim me dando um abraço.
- Oi Emmett.
Retribui seu abraço e olhei para Alice.
- O que você acabou de dizer... Sobre o futuro de Edward? – perguntei.
Ela deu um suspiro e Emmett até sentou numa das cadeiras da cozinha.
- Bella, eu não quero que crie falsas esperanças quando nem mesmo eu tenho, mas vou lhe dizer a verdade – murmurou. - O futuro de Edward não desapareceu como se ele não existisse mais, como já aconteceu com o de outras pessoas que eu conheci e morreram.
- Como assim? – eu quis saber, sentindo meu coração cantar em meu peito.
- James por exemplo. – exemplificou - Lembra quando ele estava caçando você em Phoenix no ano passado?
- Lembro – disse. Jamais esqueceria.
- Eu estava monitorando as decisões dele e quando ele foi morto, o futuro dele simplesmente desapareceu. Já com Edward isso não aconteceu. Tudo o que eu vejo é negro. Eu não consigo ver mais nada, além disso. O preto é tudo o que eu enxergo.
- Então ele... ele ainda... Alice, ele ainda pode estar vivo, não pode? – falei meio que gaguejando, caindo em espiral na armadilha da esperança.
- Não tenho esperança quanto a isso. Desculpe-me – ela murmurou abaixando o olhar. – Os Volturi são famosos por serem imparciais e não generosos.
- Mas e quanto ao preto? – perguntei. – E se ele estiver num calabouço onde não há luz alguma? Isso explicaria o porquê de você só ver a cor preta. Se ele estiver no escuro, não haveria outra coisa para ver.
A esperança era demais. Era como um feixe de luz no meio da escuridão.
- Bella, antes de Alec tirar meus sentidos... Eu tive uma visão da morte de Edward – Alice me disse com os olhos agoniados, fazendo com que qualquer esperança se evaporasse.
Cai sentada na cadeira atrás de mim. O golpe foi forte demais.
- Eu só pensei por um momento... que... poderia haver uma chance... – murmurei abaixando o olhar, tentando segurar minhas lágrimas. Engoli em seco.
Agora não.
Se for para a minha dor me dominar, que seja quando eu estiver sozinha. Ninguém precisava me ver sofrer, muito menos sentir pena de mim. Eu não merecia isso. Não merecia a pena de ninguém.
- A minha teoria sobre esse escuridão que Alice vê nas visões dela é a ligação. – Emmett murmurou. Levantei os olhos para prestar a atenção nele - Com as outras pessoas, o futuro simplesmente desapareceu porque não havia nenhum tipo de ligação, já com meu irmão há os laços emocionais que nos une.
- O que Emmett disse é verdade – Alice concordou e deu um suspiro. – Mudando de assunto... Bella, você precisa se alimentar.
- Não estou com fome – murmurei dando de ombros.
Sabe-se lá Deus quanto tempo fazia que eu não comia, mas eu não sentia fome. Não sentia nada além de dor.
- Mas precisa se alimentar senhorita Isabella. – murmurou Emmett levantando da cadeira com um sorriso brincalhão e remexendo nas panelas do fogão. – Eu fiz panquecas de banana. Vai recusar minhas panquecas?
Dei um meio sorriso.
- Só vou comer para não te magoar – murmurei. Ele abriu um sorriso imenso e colocou um prato com uma panqueca regada a mel enorme na minha frente, enquanto Alice servia um suco de laranja num copo para mim.
Eu mastigava sem mal sentir o gosto. Sabia que era doce, porque o paladar informava ao meu cérebro isso, sabia que estava bom porque deixava um bom sabor na minha língua... Mas sentir a textura, saborear, sentir o gosto pra valer... Eu não sentia.
Depois que terminei de comer, limpei a boca com um guardanapo.
- Obrigada Emmett – agradeci. - Estava muito gostoso.
- Ah, não precisa agradecer Bella. O papai aqui sabe que manja na cozinha – ele deu risada com uma piscadela, fazendo com que eu e Alice caíssemos na risada também.
Só ele para me fazer sorrir numa hora dessas.
- Como você é modesto, Emmett – Alice comentou, fazendo com que eu me lembrasse automaticamente de Edward. Foi o que ele disse a Alice, quando ela se convidou para ser madrinha de nosso casamento.
Cruzei os braços em meu peito, tentando me manter intacta. Os pedaços de mim pareciam continuar a cair. Mal percebi quando um gemido de dor – que devia ter ficado em meu peito - escapou por meus lábios.
- Esta sentindo dor, não é? – Alice levantou da cadeira ao meu lado com um olhar preocupado antes que eu respondesse e foi até o armário, pegando algo lá dentro. Quando ela se voltou para mim, estava segurando um copo d’água e um comprimido.
- O que é isso? – perguntei enquanto pegava o comprimido de sua mão.
- Analgésico para a dor – respondeu. - Não pode deixar de tomar seus remédios Bella.
A dor que eu sentia era emocional e não física embora os machucados em meu corpo - devo admitir -, estivessem latejando um pouco.
Coloquei o comprimido na língua e engoli junto com a água. Em seguida, entreguei o copo de volta para Alice.
- Que horas irá começar a cerimônia? – perguntei.
- Bom, agora é meio dia e meio. Temos de estar lá às duas da tarde – Emmett respondeu.
Então ainda tínhamos uma hora e meia. Até o cemitério de Forks, era mais um menos de vinte e trinta minutos de carro.
Não era longe.
- Tudo bem, então eu vou... Lá em cima. É rápido, já volto – murmurei começando a me levantar da cadeira, mas assim que fiquei de pé uma vertigem muito forte me atingiu e se não fosse a agilidade de Emmett em me segurar eu teria caído no chão.
- Bella, o que aconteceu? – Emmett perguntou me fazendo sentar novamente. Alice disparou para a pia e pegou um copo de água para mim.
- Foi só uma tontura – respondi. Comprimi a minha mão fria sob a testa e com a outra peguei á água que Alice me ofereceu. Dei alguns goles e coloquei o copo em cima da mesa.
- Já teve essas tonturas antes? – ela me perguntou.
- Não – respondi. – Quer dizer, sim. Na Itália, mas lá era porque eu estava sem comer... mas agora, eu não sei.
- Deve ser o emocional. O emocional deve estar mexendo com seu organismo – Emmett disse. – Tem certeza de que esta bem para ir conosco pra cerimônia?
- Estou, eu só preciso escovar os dentes e jogar uma água fria no rosto – murmurei levantando da cadeira novamente, mas me apoiando na mesa para ter certeza de que estava com o equilíbrio normal.
- Tudo bem. Vai lá que nós te esperamos aqui em baixo. Qualquer coisa grite – Emmett murmurou e Alice assentiu concordando.
- Ta – murmurei saindo da cozinha e subindo as escadas. Ao chegar no banheiro, apóie-me na pia respirando fundo.
Havia uma espécie de mal estar na boca do meu estômago. Aquela estranha náusea era irritante, incomodava. Talvez Emmett tivesse razão e fosse o emocional. Eu não estava sem comer, então o que mais seria?
Joguei um pouco de água na nunca e no rosto e logo em seguida escovei os dentes. Depois de estar devidamente arrumada, fui para o quarto para pegar minha bolsa... Foi quando me deparei com algo dentro dela.
Uma rosa vermelha.
Era a rosa que Edward me dera...

Ele estendeu a mão pro lado e com uma habilidade e sutilidade incrível, colheu uma rosa vermelha, linda que estava ao nosso lado.
- Para você, senhorita Isabella – deu um sorriso, me oferecendo à rosa.
Senti o perfume dela. Era maravilhoso, eu sempre me lembraria dele. Eu levaria a rosa de volta comigo para casa e depois que a pétala das secassem, as colocaria num livro.
- Obrigada, Senhor Cullen – sorri.
- Sabia que na época em que eu nasci, toda vez que um homem iria cortejar uma mulher, levava consigo um buquê de flores ou rosas vermelhas? – ele disse.
- Já vi isso em filmes.
- Mas como nós não somos um casal muito tradicional, prefiro oferecer-lhe uma rosa e um roseiral inteiro, afinal, eu ainda sou um cavalheiro do século XX – ele deu uma piscadela.

Estendi a mão e a peguei. Não havia uma pétala murcha sequer. Como ela havia sobrevivido há uma longa viagem, dentro de um ambiente fechado e abafado?
Parecia que ela havia sido colhida naquele momento. Ela estava perfumada e linda... Num vermelho vivo e radiante.
Aquela rosa simbolizava meu amor por Edward. Não importa o que aconteça. Ele irá viver para sempre. Sempre será vivo e radiante.
Pressionei-a contra meu peito e em seguida dei um beijo em suas pétalas, depositando-a em seguida em cima da mesinha ao lado do meu notebook. Optei por deixar a bolsa em casa e ir sem nada.
Desci as escadas e Alice e Emmett estavam me esperando.
- E aí, vamos? – perguntou Alice.
- Vamos – respondi.
Emmett havia trago a Mercedes de Carlisle até a porta de minha casa. A viagem até o cemitério de Forks foi curta como eu previra e silenciosa. Ao chegarmos lá, outras pessoas estavam chegando também, além de nós e os outros Cullen. Alguns amigos do trabalho de Carlisle, colegas da escola como Mike, Jessica, Ben, Tyler, Laureen, Angela, Eric e outros que eu conhecia apenas de vista, estavam chegando também. Minha patroa, a senhora Newton e seu marido, os irmãos de Angela, o senhor Marks e sua família, John Dowling, o pastor - senhor Weber - e inúmeras outras pessoas que eu já nem conseguia mais nomear.
Quando meus colegas da escola me viram suas expressões foram de pena e tristeza. Eles sabiam que eu havia mudado quando Edward me deixou, sabiam que eu havia sofrido como ninguém, que havia me isolado de tudo e de todos, havia me tornado um zumbi. E sabiam que com a morte dele eu estaria sofrendo ainda mais.
Eu não merecia a pena deles. Era por minha culpa que Edward estava morto. Ele havia dado a sua vida para me salvar. Segurando as minhas tão conhecidas lágrimas, desviei o olhar dele e dei um passo em direção a capela. Quando Alice e eu íamos entrar, ouvi alguém me chamar. Quando virei para trás deparei-me com Charlie.
- Pai... Pensei que tivesse ido trabalhar – murmurei, enquanto ele subia os dois pequenos degraus até a porta da capela deslizando para o meu lado. Alice gesticulou para mim avisando que ia na frente para encontrar Jasper. Assenti e voltei a dar a atenção para meu pai.
- Eu fui, mas pedi dispensa do trabalho para poder ficar com você. Não podia deixá-la nisso sozinha querida – ele murmurou, passando os braços por meu ombro.
- Obrigada – agradeci, mais uma vez surpresa com seu gesto de carinho.
Entramos juntos na capela. Ela era pequena, havia apenas cinco bancos de cada lado, mas a arquitetura era impecável. No fim de cada fileira de bancos, havia um vaso de rosas brancas e vermelhas misturadas umas com as outras no corredor central. O teto era pintado artesanalmente, mas o que mais me chamou a atenção foi à figura de um anjo no meio das nuvens, olhando para baixo. Como se estivesse cuidando de alguém abaixo dele. Aquela imagem era a personificação da minha imaginação. Para mim, Edward havia se tornado um anjo. E seja onde ele estiver ele estaria cuidando de mim, eu sentia isso. Nas paredes ao lado dos bancos, havia arcos onde suas pontas eram revestidas a ouro e prata, era uma espécie de suporte para as estatuas de gesso que lá havia. Havia dois suportes de cada lado, totalizando quatro. Todos com estatuas de anjos, onde as asas e as auréolas eram de ouro e prata, porém diferentes uma das outras. A primeira do lado esquerdo era um anjo que olhava ternamente para cima, uma bela representação de um arcanjo olhando para o céu. O segundo era de um anjo, segurando uma borboleta em suas mãos. Do lado direito, as imagens eram de anjos também, porém as expressões dos anjos pareciam tristes demais. Parecia que eles estavam absorvendo a áurea do ambiente. O primeiro olhava para baixo e suas asas entalhadas a ouro, pareciam meio caídas. Como se estivessem encharcadas por causa de lágrimas. E o segundo parecia olhar para mim. Era como se ele tivesse passando a mensagem de fé e esperança. Logo mais a frente no altar, havia uma pequena mesinha de vidro com uma bíblia num suporte própria para ela e duas velas dentro de candelabros que ficavam um em cada ponta da mesa. Em frente a mesa havia uma urna. A urna com as cinzas – simbólicas - de Edward.
A parede de trás do altar era composta por um arco que mais parecia arquitetura da era medieval, onde havia uma cruz entalhada por filetes de ouro onde Jesus cristo estava de braços abertos, sendo crucificado. Sentei-me com meu pai no segundo banco da segunda fileira do lado esquerdo ao lado de Alice e Jasper. Na nossa frente, estavam Carlisle, Esme, Rosalie e Emmett.
Os primeiros bancos do lado direito foram ocupados por algumas pessoas que me chamaram a atenção. Não era ninguém de Forks, eu tinha certeza disso. As três loiras que se sentaram no primeiro banco da frente, eram extremamente pálidas assim como os Cullen e de uma beleza inesquecível e o casal que se sentou atrás dela, também eram de uma beleza notória demais para ser humana. Uma delas se virou na minha direção e quando olhei seus rudes olhos dourados, um calafrio percorreu minha espinha.
Ela era uma imortal.
Segurei o braço de Alice que estava ao meu lado, incapaz de desviar os olhos daquela loira que me encarava.
- O que foi Bella? – sussurrou baixinho, enquanto o padre se preparava para começar a cerimônia.
- Quem é? – perguntei. Alice seguiu meu olhar e viu de quem eu estava falando. A loira que me fuzilava com os olhos, ao ver que Alice também estava observando desviou o olhar.
- Os Denali. – respondeu identificando todos os imortais. - Eles vieram do Alaska. São amigos da família, Bella.
- Porque ela me olhou daquele jeito? – quis saber. A pergunta que eu fiz era mais para mim mesmo do que para Alice – afinal eu nunca a vira na minha vida. Mas ela me respondeu mesmo assim.
- Ignore os olhares dela. E se ela lhe disser algo, finja que não ouviu. Não de atenção a Tanya – murmurou.
No entanto, o que ela me disse só me deixou ainda mais confusa.
Tanya. Então era esse o nome dela?
Edward nunca me falou nada sobre ela – pelo menos não que eu me lembre.
O padre pediu silêncio e para que todos nós nos sentássemos. E assim começou a celebração.
- Caros irmãos e irmãs... Estamos hoje aqui reunidos para lamentar a perda de um jovem com o coração de ouro, que deixou uma família e um amor cedo demais. Edward Anthony Masen Cullen não era um jovem comum, era um rapaz com uma alma muito humilde. Seu coração era bom e puro, sempre colocava o bem estar daqueles que amava em primeiro lugar, atitude rara de se encontrar. Infelizmente para nós que aqui ficamos a sofrer esta perda, Deus decidiu que era a hora de levar este puro e bom homem para seu rebanho de anjos, mas devemos ficar feliz, pois hoje há um novo guardião no céu para cuidar daqueles que tanto amamos... – a voz do Padre foi se tornando cada vez mais distante de mim, parecia que ela ecoava dentro da minha mente numa dimensão completamente diferente. Ela foi se distanciando, distanciando até que eu já não ouvia mais nada.
A névoa havia me envolvido com força total. Fechei os olhos.
Uma brisa fria junto com um perfume familiar me atingiu. Era o perfume dele. O perfume do meu amor, do meu Edward.
Ele estava aqui comigo, ele sempre estaria. Nos meus sonhos, nos meus pensamentos e no meu coração.
Abri os olhos e olhei a minha volta, enquanto silenciosas lágrimas escorriam por minha face. Alice estava abraçada com Jasper ao meu lado. Lágrimas não caiam de seus olhos, porém soluços brotavam de seu peito. Era um choro sem lágrimas. Jasper não chorava, mas seus olhos eram o reflexo da pura tristeza. Olhei para frente e vi a mesma cena se repetir com Esme nos braços de Carlisle e Rosalie nos braços de Emmett. Esme parecia ser a mais afetada de todos, afinal, ela era mãe. Uma mãe que havia acabado de perder seu filho.
Mãe.
Isso me fez lembrar de Elizabeth, a mãe biológica de Edward. Talvez agora ele estivesse ao lado dela e do pai. A família Masen agora estava completa no céu.
Meu pai ao meu lado passou os braços em volta de meu ombro novamente e eu apoiei minha cabeça em seu peito, enquanto ele me abraçava deixando que as lágrimas levassem consigo pelo menos um pouquinho da tristeza e da dor que eu sentia naquele momento.
Outras pessoas também se emocionavam com as palavras ditas pelo padre e derramavam lágrimas. Elas derramavam lágrimas de emoção. Eu e toda a família de Edward chorávamos de dor e tristeza da perda dele. Uma perda que seria eterna para aqueles que realmente o amava.
A névoa me deixou novamente, me permitindo voltar a ouvir o que o Padre dizia.
-... Que Deus de força aos entes queridos deste jovem que tão cedo partiu para o seu rebanho. Que sua família e seu amor consigam seguir em frente, com muita fé, força e esperança, pois um dia a morte irá nos levar e todos os merecedores dignos do paraíso irão se reencontrar. Lembrem-se dos bons momentos ao lado dele e sorriam. Não chorem porque ele partiu, sorriam porque ele existiu – murmurou o padre descendo o pequeno degrau que separava o altar de onde estávamos com um pote de água benta. – Rezemos pela alma de nosso irmão, para que ele descanse em paz.
Ele começou a jogar água benta em cima da urna em frente ao altar e depois se dirigiu a nós que estávamos nos bancos. Fechei meus olhos quando as gotinhas caíram sobre mim e fiz o sinal da cruz, enquanto o padre nos abençoava ‘Em nome do Pai. Do Filho e do Espírito Santo’.
Eu te amo. Descanse em paz meu amor...
Minha oração foi mentalmente, mas disse tudo o que eu precisava enquanto mais uma lágrima escorria por meus olhos.
Pelo corredor central da capelinha o padre continuou sua benção. Esme e Carlisle se dirigiram a urna com as ‘cinzas’ de Edward.
Eles pegaram a urna, e saíram pelo corredor central e atrás deles uma lenta procissão se seguiu. Alice, Jasper, Rosalie, Emmett, Eu, Charlie e todas as outras pessoas ali presentes os seguiram em passos lentos e dolorosos.  Ao sair da capelinha para a chuva fina como pó, senti alguém segurar meu braço.
Era Angela com seu namorado Ben.
Ela me deu um abraço e eu o retribui. Seus olhos estavam marejados de lágrimas.
- Eu sinto muito, Bella – murmurou acariciando minha cabeça enquanto me abraçava. – Mas tenha fé. Tudo irá dar certo.
Ela se afastou de mim e olhou em meus olhos. Ela pegou minha mão e colocou algo lá dentro, fechando-a em seguida.
- Fé – ela murmurou olhando ternamente em meus olhos. – Conte comigo para o que precisar.
- Obrigada – murmurei.
Angela e Ben saíram de minha vista. Quando eu abri minha mão havia um pequeno terço com imitações de pérolas cor de rosa.
Fé. Ela havia me dito para ter fé.
Toquei o pequeno terço. Eu o guardaria comigo. Nunca havia sido uma pessoa religiosa, mas sempre acreditei em Deus.
Fé. Era a única coisa em que me restava apegar-me naquele momento.
- Vamos, filha. Precisamos acompanhar a procissão – Charlie me disse, apertando seus braços em volta de meus ombros como para que me amparar.

A procissão se seguiu com muita oração para a ala do cemitério, onde havia inúmeras gavetas, onde ficavam guardadas as cinzas dos corpos que eram cremados.
As gotas de chuva continuavam a cair cada vez mais pesadas. Era como se a cada passo em direção ao repouso eterno de meu amor, o céu derramasse lágrimas de dor, assim como eu.
Seguimos a passos lentos até a parede onde simbolicamente as cinzas e a alma dele, repousariam por toda a eternidade.
As lembranças da mais perfeitas de todas as manhãs me atingiram naquele momento, golpeando-me com mais uma apulanhada de dor.

- Acabou, meu amor. Tudo ficará bem. – sussurrou no meu ouvido.
- Finalmente – murmurei.
- Esta cansada? Durma um pouco, mais tarde te acordo.
- Não, não estou cansada. Só quero ficar aqui, com você. – sussurrei, sorrindo de olhos fechado.
- Para sempre? – perguntou beijando minha testa.
- É. Para sempre. – sussurrei me aconchegando nos braços de meu amor.

Eternidade. Esse era o sonho.
Edward era toda a minha eternidade, meu mais belo sinônimo de felicidade. A felicidade era o meu maior aliado ao tão sonhado 'felizes para sempre', que eu achei que finalmente teria ao lado dele. Mas não foi assim. E eu tive de aprender da pior forma imaginável. O meu tudo havia sido arrancado de mim da forma mais cruel possível e a culpa era minha.
O meu ‘felizes para sempre’ jamais chegaria. Ele tinha hora para acabar. E a ‘eternidade’ nunca mais existiria. Aquele era o fim.
Da vida. Da essência. Do significado. De tudo.
A procissão subitamente parou de andar. Observei a parede de granito com várias portinhas, onde havia os mais diversos nomes gravados. Algumas havia flores murchas, esquecidas e marcadas pelo tempo. Outras com velas que se derreteram e nunca foram tiradas. E então mais a frente eu vi. Minha mente gritava para que eu fechasse os olhos e não registrasse mais nada em relação a ele. Era como se inconsciente, ela tentasse me proteger daquela dor dilaceradora. Mas foi inevitável. Eu vi.
O nome dele junto a um brasão – devia ser o da família Cullen.
Doeu. Doeu tanto que eu pensei que fosse desabar se meu pai não tivesse me amparado. As lágrimas agora caiam com mais força por meus olhos, assim como a chuva que deixava minha roupa encharcada, fazendo com que meu cabelo grudasse em minha pele.
Perdida em minha própria dor, não vi quando Alice se aproximou de mim. Ela me estendeu duas rosas. Uma vermelha e outra branca.
- Branca por paz. E vermelha por amor – ela murmurou a mim. – Era você que ele amava.
Peguei as duas rosas.
Observei quando Esme e Carlisle depositaram as simbólicas cinza de seu filho dentro da portinha que em seguida se fecharam. A expressão de ambos marcadas pela tristeza e retorcidas de dor.
O Padre nos deu uma última chance para nos despedir dele.
Rosalie e Emmett foram os primeiros. Eles depositaram suas rosas, em um vaso de metal colocado em frente a gavetinha. Alice, Jasper, Os Denali, amigos de trabalho de Carlisle, meus colegas da escola e diversas outras pessoas depositaram suas rosas brancas. Um sinônimo de paz para ele. O tempo passava, o Padre rezava acompanhado de seus fiéis, a chuva caia e a dor continua em meu peito. E continuaria para sempre. Eu fui à última a levar minhas rosas, ignorando os olhares sobre mim. Nada mais me importava. Nada.
Doeu. Doeu como se cada célula do meu corpo fosse queimada viva. Doeu como se eu fosse esfaqueada repetidas e repetidas vezes de dentro para fora.

Edward Anthony Masen Cullen.
Amado filho. Amado homem. Amado Anjo.

Eu tentei. Eu tentei resistir, mas machuca demais.
Era duro ler o que estava escrito na portinha. Mas inevitável. Era como correr em direção ao fogo, quando não há mais nada para salvar. Era como se toda a minha alegria falecesse no triunfo como o fogo e a pólvora. Que num último beijo se consomem.
Fazendo um esforço fora do comum, levantei minha mão e depositei minhas duas rosas dentro do vaso, antes levando as pétalas aos meus trêmulos lábios e beijando-as com carinho e amor. O vermelho vivo no meio das rosas brancas era como uma gota de sangue de um coração que sangra clamando pela morte. Como o meu clamava naquele momento.
Gotas de chuva escorriam por cima do nome dele esculpido na portinha. Elas pareciam ser o reflexo das lágrimas que escorriam por minha face naquele momento. Toquei uma das letras pratas que compunham seu nome e em seguida a palavra anjo.
- Eu te amo, meu anjo. Haja o que houver, eu sempre te amarei. Descanse em paz meu amor... – murmurei num sussurro inaudível até mesmo para os ouvidos dos vampiros.
Fechei meus olhos, envolvendo-me em minha própria bolha de tristeza, tornando-me eterna prisioneira de minha própria dor.
Os braços protetores de Charlie me envolveram, guiando-me para longe de minha tormenta.
Sinto sua falta.

Foi meu último pensamento.

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